Uma dúzia de Queirogas não vale um Jatene

Adib Jatene (Foto de Ricardo Bastos / 2014)

Por Paulo Henrique Arantes

Adib Domingos Jatene não carregava bandeiras partidárias, nem se posicionava em períodos eleitorais, o que pode ser interpretado como murismo. Mas é fato que o ilustre cardiologista tinha prestígio suprapartidário: foi ministro da Saúde de Collor e Fernando Henrique, e ajudou Lula a lutar pela manutenção da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira, a famigerada CPMF. Foram derrotados, como se sabe. 

A última entrevista do ilustre cardiologista foi a este jornalista, em setembro 2014 – ele faleceria dali a dois meses. Interessante imaginar o que teria acontecido ao país se tivéssemos Jatene no comando da Saúde durante a pandemia e comparar seu grau de conhecimento da área e as bandeiras que carregava com tudo que nos legaram homúnculos públicos como Eduardo Pazuello e Marcelo Queiroga.

Na conversa de sete anos atrás, Jatene explicou a este repórter que a Constituição de 1988 dividiu os pacientes em dois grupos – os que possuíam e os que não possuam plano de saúde. Os que tinham convênio passaram a utilizar hospitais que não atendiam os que não tinham, e assim verificou-se um deslocamento qualitativo: a liderança que antes era dos hospitais públicos, dos hospitais universitários, passou para os hospitais privados. Palavras dele: “Hoje, quem comanda a medicina, quem incorpora a alta tecnologia, são os hospitais privados, tanto que as autoridades importantes, quando precisam, vão para hospitais privados”.

Claro, ainda sobrevivem algumas “ilhas” públicas, como o Incor, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, que Jatene ajudou a criar, um dos poucos que, em São Paulo, concorrem em excelência com os particulares Albert Einstein e Sírio Libanês

Voltando à Carta de 88, seu legado alvissareiro foi ter acabado com a figura do indigente – todos passaram a ter direito à saúde. A responsabilidade do Estado foi extraordinariamente ampliada, porém não houve aumento correspondente de recursos, daí a deterioração do SUS e o poder exagerado hoje detido pelas operadoras de saúde e pelos hospitais privados, que cooptaram os melhores quadros profissionais e adquiriram tecnologia de ponta.

Na época do lançamento do programa “Mais Médicos”, Jatene posicionou-se como, digamos, um apoiador crítico. Ele não enxergou o projeto da presidenta Dilma Rousseff como uma solução, mas um paliativo contra a falta de médicos em algumas regiões do país.  “Eu não tenho nada contra médico estrangeiro. O problema é que a Escola Latino-Americana de Medicina, de Cuba, dá conhecimentos para atendimento básico, primário, e muitos deles não têm autorização para exercer medicina plena em Cuba. Mas, de qualquer forma, eles exercem um papel importante em lugares aos quais médicos brasileiros não aceitam ir”, disse-me.

Ontem como hoje, faculdades de medicina são abertas em lugares desprovidos de número de médicos suficiente para atender à demanda da população, o que é louvável. Só que, ao se formarem, os novos médicos vêm buscar trabalho no Sudeste. Jatene sugeria que o recém-formado fosse obrigado a permanecer dois anos em residência na localidade em que estudou, supervisionado pela escola, e prestando atendimento básico à população.

Quando entrevistei Adib Jatene, os planos de saúde de baixa cobertura eram relativamente baratos – ainda o são.  Para possuir atendimento completo, um convênio de qualidade superior, é preciso pagar uma fortuna. Com o SUS operando milagres dado o orçamento canhestro que lhe é atribuído, aprofunda-se a desigualdade. Jatene tinha tal percepção: “Como se promove desigualdade? Você promove desigualdade quando os que geram a renda se apropriam dela. Quando criamos a CPMF, que deveria ser totalmente destinada à saúde, vimos que, dos 100 maiores contribuintes, 62 nunca tinham pago Imposto de Renda. Isso significa que eles se apropriavam dessa renda. Se você conseguir fazer com que os que geram a receita paguem correspondentemente, talvez a situação se resolva”.

O cardiologista e ex-ministro da Saúde gostava de destacar que a maior alíquota do Imposto de Renda no Brasil era 27% – a mesma de hoje. “O sujeito diz que na Suécia tudo funciona, mas a alíquota na Suécia é 60%. Aí dizem: ‘lá o sujeito paga porque o serviço é bom’. Não! Lá o serviço é bom porque as pessoas pagam”, indignou-se.

Encerramos o papo, do qual saí melhor do que entrei.

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