“Não me recordo de desempenho tão esdrúxulo”, diz Pedro Dallari sobre Bolsonaro na ONU

Por Paulo Henrique Arantes

“Foi algo vergonhoso”. Assim o jurista Pedro Dallari referiu-se, em conversa com o Brasil 247, à participação de Jair Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU, na última terça-feira (21). “Não me recordo de algum chefe de Estado ou de governo de um país importante ter tido um desempenho tão esdrúxulo nas Nações Unidas. O pronunciamento de Bolsonaro causou perplexidade geral, por menores que fossem as expectativas”, disse Dallari, que é professor titular do Instituto de Relações Internacionais da USP.

Para Dallari, o papel desempenhado pelo presidente do Brasil naquele fórum, diante de chefes de Estado comprometidos em maior ou menor grau com causas comuns, extrapola o fracasso retórico: “Há um evidente impacto negativo para a reputação do país, o que acaba por alijá-lo das negociações internacionais relevantes, a exemplo do que já vem acontecendo”.

Pedro Dallari foi presidente do Tribunal Administrativo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e integrou o Conselho Diretor do Centro de Estudos de Justiça das Américas, órgão da OEA. Conhece como poucos as vicissitudes diplomáticas e suas implicações comerciais. Ele acha que a recuperação do prestígio internacional do Brasil não virá tão cedo.

“Começa a se formar na opinião pública internacional um sentimento de desilusão em relação à sociedade brasileira. O fato de Bolsonaro ter chegado ao poder e o conjunto das forças políticas se manter inertes diante dos descalabros de seu governo depõe contra o país”, avalia.

A última passagem de Bolsonaro e comitiva por Nova York entrará nos anais da vergonha nacional em posição de destaque. Além do duplo negacionismo exibido no discurso na Assembleia Geral da ONU – negacionismo científico quanto à pandemia e também econômico, ao pintar um momento econômico brasileiro fictício –, o presidente levou risco sanitário aos americanos.

“A desfaçatez maior – que causou grande repercussão internacional, e menos aqui do deveria – decorre do fato de Bolsonaro ter ido a Nova York e à ONU sem estar vacinado contra Covid. Ele colocou deliberadamente em risco as pessoas que tiveram que entrar em contato com ele”, indigna-se Dallari.

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