
Por Paulo Henrique Arantes
“Lula encarna a luta pela liberdade; Bolsonaro expressa o reacionarismo”. Com essas palavras a historiadora Heloisa Starling responde àqueles que enxergam nos dois personagens polos opostos que se equilibrariam em extremismo. Analista perspicaz da luta democrática brasileira, Starling diz que a história do Brasil constitui um infindável “sonho de liberdade” repleto de reveses, como o advento Bolsonaro.
O capitão não está sozinho nesta quadra, segundo a historiadora: “A fatia que apoia Bolsonaro não caiu do céu, nem personagens como Michel Temer. Eles são resultado de um traço da sociedade”.
Heloisa Starling contou ao Brasil 247 que estava entusiasmada com a atuação do Supremo Tribunal Federal ao confrontar, de modo mais incisivo, as vilanias do presidente da República. Mas decepcionou-se com a entrevista dada pelo ministro Gilmar Mendes à Folha de S. Paulo, no dia seguinte à divulgação da carta-retratação Bolsonaro-Temer, em que disse ser necessário acreditar nas promessas de boa convivência institucional feitas pelo chefe do Executivo.
“Eu estava vendo o Supremo, pela primeira vez, erguer barreiras, unido, em defesa da democracia”, lamentou.
Uma frase comumente atribuída a ela é seminal para caracterizar o presente momento: “A epiderme civilizatória se rompeu”. Na verdade, a sentença não é dela, mas do abolicionista Joaquim Nabuco, proferida no Século XIX. De todo modo, não poderia ser mais atual, como explica a professora: “O Brasil foi fundado na escravidão, e isso tem consequência decisiva na sociedade que se formou. A tolerância, as inclusões e os avanços civilizatórios que alcançamos até hoje são superficiais – nas palavras de Nabuco, epidérmicos. E a epiderme se rompe com facilidade”.
Na terceira década do Século XXI, era de se esperar que o regime democrático, a compreender não somente o voto popular como peça fundamental, mas também meios efetivos de inclusão social, não fosse mais posto em risco. Mas o que se vê no Brasil e em outros países é o fortalecimento de um autoritarismo repaginado, de face diversa das ditaduras tradicionais, que se aproveita de instrumentos da própria democracia para corroê-la por dentro.
Quem melhor descreveu as novas formas de autoritarismo foram os professores da Universidade Harvard Steven Levitsky e Daniel Ziblat, no livro “Como as Democracias Morrem”, de 2018, que teve grande repercussão no mundo inteiro.
No trecho abaixo, sobre os Estados Unidos nas mãos de Donald Trump, está perfeitamente retratado o Brasil de Bolsonaro e sua contenda contra as urnas eletrônicas, o que mostra o caráter internacional do novo reacionarismo:
“O presidente (Trump) também violou normas democráticas essenciais quando denunciou abertamente a legitimidade das eleições. Embora sua alegação de ‘milhões’ de eleitores ilegais tenha sido rejeitada por verificadores de fatos, repudiada por políticos de ambos os partidos e descartada como sem fundamento por cientistas sociais. (…) Falsas acusações de fraude podem minar a confiança pública em eleições – e quando cidadãos não confiam no processo eleitoral, muitas vezes perdem a fé na própria democracia”.
Para Heloisa Starling, o fato de Trump ter perdido a Presidência dos Estados Unidos não significa o fim da influência global do ex-presidente, com tudo que ela representa. “Ele despachou seu assessor para cá”, notou, referindo-se à visita do marqueteiro Jason Miller, que acabou sendo ouvido pela Polícia Federal no âmbito do inquérito das fake news.
Vencer essa turma não será coisa fácil. Starling ainda não sentiu disposição para tanto no cenário político brasileiro. “As forças de oposição estão de fato convencidas de que a democracia está em risco? Sim? Então elas têm que se unir”, concitou. E finalizou: “A incompetência das nossas lideranças para organizar uma reação de fato é gritante”.
