Laurentino Gomes abandonou Gilberto Freyre, ainda bem

Por Paulo Henrique Arantes

Dá certo alívio saber que temos no Brasil pessoas como Laurentino Gomes, que foi entrevistado no Roda Vida da segunda-feira 19. Sim, porque se trata de um escritor, e jornalista, que tem a humildade de não se dizer historiador, mas demonstra enorme capacidade de elucidar a História do Brasil. Lucidez e simplicidade marcam seus escritos e suas falas.

“Eu faço livros-reportagem. São livros de não-ficção, eu não invento diálogos ou cenários. Tudo que eu escrevo nos meus livros é baseado em fontes, e geralmente fontes credenciadas pela academia, mas, na hora de escrever, eu uso uma linguagem literária e jornalística. São instrumentos que a comunicação desenvolveu para atrair e reter a atenção do leitor”, disse Laurentino a este jornalista em 2013.

Registre-se que, talvez ao pesquisar para sua coleção “Escravidão”, Laurentino mudou um pouco de opinião. Em 2013, ele parecia nutrir simpatia pelo “charme” da escravidão descrito em “Casa Grande & Senzala”, e assim falou a este repórter: “O livro de Gilberto Freyre mostra uma composição da sociedade brasileira pela sua variedade, pela sua riqueza cultural, pela contribuição africana, pela convivência entre o senhor branco e os seus escravos, que é maravilhosa. Ele quebra os muros entre a Casa Grande e a senzala”.

Hoje, Laurentino Gomes demonstra ter a exata noção de como e por quais razões chegamos a 2021 como um país preconceituoso e desigual – um país racista. Ele também desnuda em sua nova obra toda a crueldade com que os senhores tratavam seus cativos no Brasil. Não se pode pensar dessa forma e exaltar Gilberto Freyre. Hoje, Laurentino bate duro no nosso racismo estrutural e nos seus perpetuadores.

Por Laurentino, o atual, fica-se sabendo que os negros que aqui chegavam em navios negreiros, provenientes de diferentes localidades da África, não eram mera força física a serviço de fazendeiros. Muitos tinham expertise em mineração, por exemplo, e foram os verdadeiros responsáveis técnicos pelo ciclo do ouro, não os bandeirantes.

Sabe o Laurentino atual que o negro brasileiro ainda não se livrou das correias. Como diz o velho samba da Mangueira, “pergunte ao Criador quem pintou esta aquarela, livre do açoite da senzala, preso na miséria da favela”.

O levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública “A Violência contra Negros e Negras no Brasil” informa que de cada 100 pessoas assassinadas no país 75 são negras, e que os homicídios de negros cresceram 33,1% de 2007 a 2017, enquanto os de não-negros aumentaram 3,3%. Além disso, 66% das mulheres vítimas de homicídio em 2017 eram negras. E, entre 2017 e 2018, 75,4% das pessoas mortas em intervenções policiais entre 2017 e 2018 eram negras.

A violência decorrente do racismo estrutural e da profunda desigualdade social não se concretiza apenas em homicídios e outros tipos de agressões físicas. A pandemia do novo coronavírus também alveja com mais força a população negra. Já se sabe que as pessoas negras morreram e morrem muito mais de Covid-19, não por fatores biológicos, mas por sua condição de vida, pois boa parte delas vive em locais insalubres, onde é impossível manter distanciamento umas das outras.

Outra prova de que a escravidão na acabou quando da promulgação da Leu Áurea é que negros e negras só foram admitidos na educação formal na década de 1940, fator gerador de um déficit educacional que por si só já deveria justificar cotas escolares e universitárias.

Somos um país racista, em que elites fazem o que podem para manter negros e negras fora das esferas decisórias, quando não fora das esferas civilizadas. Gilberto Freyre enxergou um glamour de romance juvenil na escravidão brasileira. Laurentino Gomes percebeu a tempo que, na verdade, o glamour nunca existiu e os negros ainda lutam para não serem tratados como sub-humanos.  

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