
Por Paulo Henrique Arantes
O alerta de emergência hídrica emitido pelo Sistema Nacional de Meteorologia expõe uma situação assustadora: o Brasil pode sofrer em breve desabastecimento de energia elétrica. No limite da tragédia, seriam afetados indústrias, lares, agricultura e hospitais, relembrando o apagão de 2001, que destruiu o discurso de eficiência administrativa do governo Fernando Henrique Cardoso. A origem do problema é natural – a falta de chuvas -, mas suas consequências dependerão da capacidade de o governo Bolsonaro atuar em regime emergencial de abastecimento.
“A situação já vinha sendo anunciada e é bem delicada. Praticamente todo o Brasil vem sofrendo chuvas abaixo da média há vários anos. Desde 2014, quando se decretou aquela crise de falta de água na região metropolitana de São Paulo, as chuvas não voltaram a se normalizar. Já temos praticamente sete anos consecutivos de chuvas abaixo da média nas principais bacias de geração de energia do país”, explicou ao Brasil 247 o meteorologista Marcelo Enrique Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), órgão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação que, dotado de reconhecida qualidade técnica, ainda não foi sabotado pelo governo anticiência de Jair Bolsonaro.
Seluchi diz não ter meios para cravar que o Brasil sofrerá ou não um apagão, mas adverte que, para impedir o pior, é necessário que o governo saiba como administrar recursos hídricos e energéticos escassos. “O sistema hidrológico, hídrico e energético vem acompanhando constantemente a situação. O que acontece é que, após vários anos consecutivos de chuva abaixo da média, havia uma esperança de que a estação chuvosa que acabou de se encerrar fosse boa, mas não foi. Por isso agora, depois de uma estação chuvosa muito deficiente e tendo que atravessar todo o período seco que vem pela frente, o problema fica mais evidente”, diz o meteorologista.
Segundo Seluchi, o setor energético está fazendo o possível para economizar água dos reservatórios. “Todo o parque termoelétrico disponível está ligado, há as centrais nucleares, já está sendo gerada energia eólica em quantidade considerável no nordeste. Está sendo utilizado tudo que existe à disposição”, frisa.
Fato é que o alerta soou e só mais à frente saberemos se tardiamente. A vocação do governo Bolsonaro para minar as ilhas de excelência técnica do país é notória. Não é difícil imaginar a designação de um Pazuello para comandar as ações concentradas de monitoramento das condições hídrico-energéticas. As orações devem ser para que não seja destruída uma estrutura desenvolvida às duras penas por governos passados.
“Depois do apagão que tivemos em 2001, a situação como um todo melhorou. Hoje há disponibilidade de outras fontes de energia bem mais alta que 20 anos atrás, e o sistema está praticamente todo interligado. É possível transferir energia de uma região para outra. Neste ano, por exemplo, choveu dentro da média na Amazônia – foi a única região com chuvas dentro da média. O norte ficou, de alguma forma, exportando energia para as outras regiões para tentar compensar a falta de chuvas. A nossa situação hidrológica é bastante complexa”, finaliza Marcelo Seluchi.
