Lula na Casa Branca: diplomacia manda bem, mas todo cuidado é pouco

Ricardo Stuckert / PR

A confirmação do encontro bilateral entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump na Casa Branca, marcado para março de 2026, representa um êxito significativo da diplomacia brasileira. Depois de um início turbulento do segundo mandato republicano — com ameaças tarifárias, declarações hostis sobre o processo judicial de Jair Bolsonaro e tentativas retóricas de ingerência em assuntos internos brasileiros —, sentar-se à mesma mesa com o presidente americano em condições de igualdade não era resultado trivial.

O Itamaraty conduziu um paciente trabalho de reconstrução de canais de diálogo. A estratégia envolveu gestos calculados, a manutenção de contatos com setores empresariais americanos interessados em manter boas relações com o Brasil, a sinalização de disposição para cooperação em temas de interesse mútuo e a contenção de declarações públicas que pudessem ser interpretadas como hostis por Washington. O resultado prático é a reunião de cúpula que agora se desenha como oportunidade de restabelecer uma relação civilizada entre os dois países.

A pauta do encontro deverá incluir cooperação contra o crime organizado transnacional, comércio bilateral, investimentos em infraestrutura e energia, e questões geopolíticas como a situação na Venezuela, o conflito na Ucrânia e o papel dos BRICS no cenário global. O governo brasileiro pretende oferecer uma parceria concreta no combate ao crime organizado, com compartilhamento de informações financeiras e ações coordenadas contra a lavagem de dinheiro e o tráfico de drogas.

Essa oferta de cooperação, no entanto, precisa vir acompanhada de salvaguardas claras para a soberania nacional. O episódio recente em que agentes do FBI realizaram uma operação de captura no México sem autorização do governo mexicano acendeu um sinal de alerta em Brasília. O Brasil não pode aceitar que forças estrangeiras atuem em seu território sem controle e conhecimento das autoridades brasileiras. A soberania não é negociável, e qualquer acordo de cooperação deve respeitar esse princípio fundamental.

Trump não é um interlocutor convencional, e isso é um fato que a diplomacia brasileira precisa ter sempre presente. O presidente americano já demonstrou ao longo de sua trajetória política um desprezo sistemático por normas multilaterais, uma hostilidade declarada a organizações internacionais e uma disposição permanente de usar o poder econômico e militar dos Estados Unidos como instrumento de coerção sobre outros países.

Lula, em contraste, construiu sua carreira política defendendo o multilateralismo, a solidariedade entre nações emergentes e a solução diplomática de conflitos. Em seus mandatos anteriores, projetou o Brasil como protagonista global, aproximou o país de outras potências emergentes e defendeu uma reforma da governança global que desse mais peso aos países em desenvolvimento. Os dois líderes representam visões de mundo opostas, e a reunião de março será um teste de habilidade diplomática como há muito não se via.

A posição brasileira em relação aos BRICS é um ponto particularmente sensível. Trump sempre viu o bloco com desconfiança, especialmente diante das discussões sobre a criação de mecanismos financeiros alternativos que reduzam a dependência do dólar. O Brasil precisará explicar que sua participação no grupo não é um movimento antiamericano, mas sim a busca por maior representatividade dos países emergentes em uma ordem global que ainda reflete a correlação de forças do pós-Segunda Guerra Mundial.

Outro tema espinhoso é a Venezuela. Trump já autorizou operações militares americanas no país vizinho, ampliando a crise humanitária e gerando instabilidade regional. O Brasil defende consistentemente uma solução negociada para a crise venezuelana, com mediação regional e respeito à autodeterminação do povo venezuelano. O Itamaraty precisará ser firme na defesa desse princípio, sem ceder a pressões por um alinhamento automático aos interesses unilaterais de Washington.

No campo comercial, o Brasil buscará ampliar o acesso de seus produtos ao mercado americano, especialmente no setor agrícola e de manufaturados. A política protecionista de Trump, que já impôs tarifas elevadas a China, Canadá e México, representa uma ameaça real à economia brasileira. O Itamaraty precisará negociar com habilidade para evitar que o Brasil seja prejudicado por uma guerra comercial que não escolheu e da qual não pode ser vítima colateral.

Há ainda a questão ambiental, que separa os dois líderes de forma particularmente aguda. Trump sempre tratou o aquecimento global como uma farsa e retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris em seu primeiro mandato. O Brasil, ao contrário, mantém sua posição de liderança na agenda climática, amparado pela Amazônia e por uma matriz energética majoritariamente limpa. Esse contraste pode ser fonte de atrito, mas também de negociação: o Brasil pode oferecer cooperação em energia renovável e conservação ambiental em troca de benefícios comerciais concretos.

O encontro de março também terá repercussões na política doméstica brasileira. A oposição bolsonarista tentará usar a reunião para criticar o governo, seja por suposta submissão aos interesses americanos, seja por eventuais resultados que considere insuficientes. O governo Lula precisa estar preparado para comunicar os ganhos obtidos na reunião à população de forma clara e direta, sem superdimensionar expectativas nem subestimar a capacidade da oposição de distorcer os fatos.

A cautela recomendada pelo título deste artigo não é pessimismo, mas realismo estratégico. Trump já humilhou líderes mundiais em reuniões bilaterais transmitidas ao vivo, já mudou de posição da noite para o dia em temas centrais, já desrespeitou acordos que ele próprio havia firmado. Lula e sua equipe diplomática conhecem esses riscos e, ao que tudo indica, estão preparados para todos os cenários.

A diplomacia brasileira tem história e tradição que poucos países no mundo podem ostentar. De Rio Branco a Celso Amorim, o Brasil construiu uma reputação sólida de negociação pacífica, diálogo construtivo e defesa consistente de princípios, mesmo em circunstâncias adversas. Lula, em seus mandatos anteriores, demonstrou capacidade de dialogar com líderes de todas as orientações políticas sem jamais abrir mão das posições fundamentais do país.

Que a reunião de março na Casa Branca seja mais um capítulo dessa história de êxitos diplomáticos. Com preparo, paciência e, acima de tudo, o cuidado que a situação exige, o Brasil pode transformar um encontro de alto risco em uma oportunidade para reafirmar sua posição no cenário global e defender os interesses do povo brasileiro.