Entre os generais-ditadores, só Figueiredo aproxima-se de Bolsonaro em deficiência intelectual

A história política brasileira é repleta de personagens controversos, mas poucos combinam tão bem incompetência, truculência e falta de visão de Estado quanto João Figueiredo e Jair Bolsonaro. Não por acaso, são os dois presidentes que mais se aproximam de um estágio de deficiência intelectual no comando da nação, cada um a seu modo, moldados por contextos distintos, mas igualmente nefastos. Figueiredo foi o último general da ditadura, aquele que prometeu abrir para a democracia e entregou um país em crise econômica e uma falsa transição política. Bolsonaro, por sua vez, foi o militar de pijama, incapacitado de articular dois pensamentos seguidos, que destruiu o tecido social e promoveu o negacionismo como método de governo.

A comparação entre os dois não é meramente retórica. Ambos governaram sob o signo do autoritarismo tosco, desprezando o conhecimento técnico e a complexidade da administração pública. Representam duas faces do atraso político brasileiro, que insiste em colocar no poder figuras incapazes de liderar uma nação complexa como o Brasil. Enquanto não fizermos o mea-culpa profundo sobre esses períodos, continuaremos a conviver com a ameaça de novos figueiredos e bolsonaros.

O general que queria o cavalo

João Figueiredo assumiu a presidência em 1979 num momento de desgaste do regime militar. Sua gestão foi marcada pela decretação do Pacote de Abril, pelo fim do AI-5 e pela Lei da Anistia — uma anistia ampla, geral e irrestrita que, como se discute abundantemente neste espaço, livrou torturadores e assassinos da Justiça. Figueiredo não possuía a intelectualidade de um Castello Branco ou o pragmatismo de um Geisel. Era conhecido por suas grosserias, declarações infelizes e um governo errático.

Sua famosa frase "Prefiro cheiro de cavalo a cheiro de povo" não poderia simbolizar melhor o desprezo de sua classe governante pela cidadania. Essa declaração, carregada de autoritarismo e desumanidade, encontra eco no modus operandi de Bolsonaro, que tratava o povo brasileiro como inimigo, especialmente durante a pandemia da Covid-19. Figueiredo era um presidente que reclamava da política, que se queixava do cargo, um líder que se ressentia da própria responsabilidade. Era o general carrancudo que não escondia seu desprezo pelo povo.

Seu governo foi marcado pela crise econômica, pela inflação galopante e pelo endividamento externo. A "abertura" política que ele prometeu foi mais uma resposta à pressão popular do que um projeto genuíno de democratização. A transição foi tutelada, preservando privilégios militares e as estruturas de poder da ditadura. A Lei da Anistia, sua marca mais duradoura, foi o instrumento que garantiu a impunidade dos algozes e criou as condições para que, décadas depois, um admirador declarado da ditadura como Bolsonaro pudesse ascender ao poder sem que a sociedade tivesse feito o devido processo de justiça de transição.

O capitão que queria a ignorância

Jair Bolsonaro é, sem dúvida, o presidente brasileiro que mais se assemelha a Figueiredo no quesito limitação intelectual para a gestão pública. Se Figueiredo era o general nostálgico do regime de força, Bolsonaro é o capitão boçal que transformou a ignorância em política de Estado. Sua gestão foi marcada por uma série de atos e declarações que revelam uma completa falta de compreensão dos fundamentos da administração pública, da economia e até mesmo das regras mais básicas de convivência democrática.

Bolsonaro não apenas flertava com a ditadura, como a reverenciava abertamente, elogiando torturadores. Sua "deficiência intelectual" manifestava-se na incapacidade de ouvir conselhos técnicos, na obsessão por teorias da conspiração, no desprezo pela ciência e na total falta de um projeto de nação coerente. Enquanto Figueiredo liderava um regime que, apesar de tudo, possuía uma estrutura de poder estabelecida (por mais repugnante que fosse), Bolsonaro liderava um governo do caos, onde a desorganização e o conflito eram as únicas constantes.

O legado de Figueiredo (a impunidade) encontrou em Bolsonaro um herdeiro natural. Ao não punir os algozes da ditadura, o Brasil abriu espaço para que seus admiradores se sentissem à vontade para pedir a volta dos militares. Bolsonaro foi o presidente que transformou a saudade da ditadura em plataforma política, algo que Figueiredo, em sua mediocridade, jamais poderia ter imaginado. Ambos são símbolos de uma elite política que nunca se preocupou em formar lideranças capazes.

As consequências da mediocridade no poder

A mediocridade de ambos os governos custou caro ao Brasil. Figueiredo legou uma inflação que explodiria na Nova República, uma dívida externa impagável e uma estrutura de poder corrompida pelo autoritarismo. Bolsonaro legou uma pandemia mal gerida, um desmonte ambiental, um ataque frontal às instituições e uma polarização violenta que ainda estamos longe de superar. O que une os dois é a total falta de compromisso com o desenvolvimento social e intelectual do Brasil. Um desprezava abertamente o povo, o outro despreza a verdade.

A deficiência intelectual de que tratamos aqui não é uma avaliação clínica — não nos cabe fazê-la — mas uma metáfora política. Refere-se à notória falta de preparo, à incapacidade de articular raciocínios complexos e à recusa em se informar adequadamente para tomar decisões de Estado. Figueiredo representava a decadência da ditadura militar, a incapacidade de gerir o próprio declínio do regime autoritário. Bolsonaro representa a falência da nova república, a ascensão de uma direita que não se preocupa mais em manter as aparências democráticas.

Perguntas frequentes sobre o legado de Figueiredo e Bolsonaro

Por que comparar Figueiredo e Bolsonaro?

Ambos representam a mediocridade e o autoritarismo no poder, cada um a seu modo. Figueiredo foi o último ditador, incapaz de gerir a transição democrática com inteligência. Bolsonaro foi o presidente que tentou destruir a democracia com ignorância e truculência. A comparação ajuda a entender o ciclo de atraso político que o Brasil insiste em repetir.

Figueiredo foi um presidente bem-sucedido?

Não. Seu governo foi marcado por crise econômica, inflação descontrolada e uma transição política controlada que manteve os privilégios dos militares. Sua Lei da Anistia, em vez de reconciliar o país, garantiu a impunidade dos torturadores e adiou a justiça de transição por décadas.

Qual a principal semelhança entre eles?

O desprezo pela inteligência e pela gestão técnica do Estado. Ambos governaram pelo improviso, pela truculência e pela recusa em ouvir opiniões divergentes. Figueiredo se orgulhava de seu desprezo pelo povo; Bolsonaro se orgulhava de seu desprezo pela ciência e pelas instituições.

O que a Lei da Anistia tem a ver com Bolsonaro?

A Lei da Anistia, uma das marcas do governo Figueiredo, criou a cultura de impunidade que permitiu o florescimento da nostalgia autoritária. Ao não punir os crimes da ditadura, o Brasil nunca fez a catarse necessária para enterrar de vez o autoritarismo. Bolsonaro surfou nessa onda de revisionismo histórico para se eleger e governar.

Bolsonaro sabia menos que Figueiredo?

Em termos de gestão, provavelmente. Figueiredo, apesar de sua grosseria, tinha ao seu redor uma estrutura de Estado que minimizava seus danos. Bolsonaro, em sua guerra contra tudo e todos, destruiu as estruturas de Estado que poderiam conter sua incompetência. A diferença é que Figueiredo era um ditador nostálgico; Bolsonaro era um democrata de fachada que tentou destruir a democracia por dentro.